10.000 CRIANÇAS COM FOME

Escrito em em Outubro 16, 2017

São muitas as notícias tristes que nos apresentam todos os dias. 10.000 crianças com fome, foi mais uma das muitas que certamente angustiou muita gente. O número é assustadoramente grande, mas penso que mesmo que todos os zeros à direita fossem apagados, e a notícia referisse apenas uma criança com fome, certamente mesmo assim algum desconforto seria imediatamente sentido por muita gente. Claro que a crise, a famosa crise que hoje serve de justificação para quase tudo, como se as pessoas já não existissem, e se cada um de nós não tivesse também um papel nas próprias vidas, apareceu como justificação destas dez mil crianças portuguesas com fome. Lembro-me do tempo das ditaduras, de esquerda e de direita, e do que se dizia sobre a alienação das pessoas, que sob as quais tudo era orientado pelo estado e nunca pelas pessoas, como se já nem tivessem alma, e assim também não eram responsabilizadas. Parece-me que vivemos tempos semelhantes, numa outra ditadura, a ditadura da crise, pois é ela que dita tudo o que fazemos ou não fazemos, e já não somos responsáveis pelo que acontece. E comecei a fazer contas. Uma carcaça de pão saloio custa dezoito cêntimos; uma embalagem de um litro de leite custa 54 cêntimos, portanto um copo de leite fica em treze cêntimos e meio; 250 gramas de manteiga um euro e dezanove cêntimos e como dá para cerca de um mês, implica um custo diário de mais quatro cêntimos; e porque todos somos gente, uma embalagem de cerca de 100 gramas de fiambre, que dá para quatro dias, custa um euro e vinte e dois cêntimos, o que leva a um custo de trinta cêntimos e meio. Portanto, é possível preparar um pequeno-almoço para um filho por sessenta e seis cêntimos. Isso mesmo, sessenta e seis cêntimos! Sei da crise que vivemos, falo com pessoas e sei das dificuldades e de angústias de muitas pessoas. Mas não acredito que hoje, em 2012, alguém em Portugal não consiga ter sessenta e seis cêntimos para comprar o pequeno-almoço para um filho. Alguns leitores pensarão que estou a querer que algumas pessoas tenham que lavar escadas em prédios. Porque não?! Estamos a falar de dar comida a um filho, e não me parece ser vergonha nenhuma lavar escadas. Há muitos anos, muitos mesmo e portanto antes desta crise, lembro-me que começava a dar aulas na universidade às oito horas da manhã, e alguns alunos vinham já, exatamente, de lavar escadas em prédios, e era assim que pagavam a sua propina. E lembro que estamos a falar de dar comida a um filho. Depois vêm os que gostam de ajudar os pobrezinhos, e alguns até defendem que os portugueses devem aprender a empobrecer … É difícil para mim resistir à pergunta sobre os porquês de certa gente precisar tanto de ajudar os pobrezinhos? Ajudar os pobrezinhos é, talvez, uma forma de dizer, pois certamente que ajudar não é muitas vezes o que muitas fazem. Ajudar seria talvez parar para conversar sobre o custo de um pequeno-almoço preparado em casa para um filho, que já vimos pode custar sessenta e seis cêntimos por dia. Mas será que estas pessoas têm um real interesse em ajudar estas pessoas? Ou apenas precisam de praticar atos de caridade de forma a aliviarem alguma culpa pessoal, originada em gestos ou palavras, atos ou omissões, que a sua moral, eventualmente católica, não lhes permita uma consciência sossegada? Quantas pessoas se servirão da ajuda aos outros, os pobrezinhos, para apagarem dentro de si estas culpas morais, gente a quem estas crises, e os pobrezinhos, dão tanto jeito?



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