Psicoterapia na Escola: um Projecto apontado à construção de uma sociedade melhor

Escrito em em Julho 16, 2018

Conheça o Projecto Psicoterapia na Escola, um recurso importante para ajudar famílias carenciadas com filhos com problemas psicológicos

Em poucas palavras pode apresentar-nos o Projecto Psicoterapia na Escola (PPE)…

Prof. Joaquim Quintino Aires (JQA) – O Projecto Psicoterapia na Escola (PPE) é, objectivamente, um recurso a que as famílias mais carenciadas, que têm filhos com problemas psicológicos, podem recorrer, usufruindo do subsídio da segurança social para pagarem esses serviços prestados por técnicos especializados. Este direito das famílias existe há 27 anos.

O PPE, dinamizado pelo IPAF (Instituto de Psicologia Aplicada e Formação), conta neste momento com cerca de uma centena de psicólogos e 10 administrativos, nas quatro regiões (Lisboa, Porto, Coimbra e Faro).

Visa a avaliação psicológica/neuropsicológica e consulta de psicoterapia, habilitação e reabilitação cognitiva, de crianças e adolescentes com problemáticas nas áreas da Psicologia Clínica e Neuropsicologia, que comprometem a sua adaptação e o seu sucesso escolar.

Para dar resposta às necessidades exibidas pelos intervenientes no processo educativo das crianças e adolescentes, o PPE, que funciona há cinco anos, tem-se apresentado como ferramenta pronta a ser requisitada pelas escolas, de todo o País, para suprir as ausências de resposta aos níveis dos recursos humanos especializados e das verbas económicas disponíveis para ajudar os professores quando confrontados com as problemáticas emocionais e neuropsicológicas dos seus alunos.

Este serviço é inteiramente gratuito para a Escola e para os agregados familiares?

JQA – Exactamente. O Projecto só recebe aquilo que a segurança social paga por cada aluno apoiado. Abdicámos do restante, ou seja daquela parte financeira que caberia às famílias, de acordo com as tabelas da segurança social.

É um Projecto assente, portanto, num sentido social…

JQA – Sim, podemos interpretar e enquadrar o trabalho das nossas equipas de psicólogos como uma intervenção social. Por exemplo, na região centro, onde o projecto está mais implantado, temos colegas que fazem 100 quilómetros, pagando a deslocação do seu bolso, para apoiarem duas ou três crianças. Somos orgulhosos. Gostamos de comprovar que o nosso trabalho como psicólogos pode ser muito útil à sociedade.

Está a falar do recurso ao subsídio de Educação Especial…

JQA – Exacto. Tendo em conta o Decreto Lei n.º 3/2008 de 7 de Janeiro, e passo a citar, os apoios educativos especializados visam responder às necessidades educativas especiais dos alunos com limitações significativas ao nível da actividade e da participação, num ou vários domínios de vida, decorrentes de alterações funcionais e estruturais, de carácter permanente, resultando em dificuldades continuadas ao nível da comunicação, da aprendizagem, da mobilidade, da autonomia, do relacionamento interpessoal e da participação.

Onde e quando é feito o acompanhamento clínico?

JQA – O acompanhamento clínico é feito nas escolas, em sintonia com os seus responsáveis. As equipas clínicas deslocam-se às escolas, em horário a acordar com a escola e com o encarregado de educação.

Qual a duração do apoio psicoterapêutico e a habilitação neuropsicológica?

JQA – O apoio psicoterapêutico e a habilitação neuropsicológica das crianças e adolescentes dura em tempo oportuno sempre que se revele necessário. O acompanhamento ocorre no período lectivo.

O valor do subsídio condiciona a duração do acompanhamento clínico?

JQA – Não. O acompanhamento clínico não está limitado ao valor do subsídio.

Como se processa o arranque do trabalho com um aluno?

JQA – Após a validação da requisição, o IPAF (Unidade PPE da região) irá agendar uma reunião com a escola requisitante, que se realiza na escola e deverá ser marcada nos 15 dias úteis a contar da data da requisição. Esta reunião tem como principal objectivo apresentar mais detalhadamente o projecto e informar acerca de todos os procedimentos e esclarecimento de dúvidas.

Quando se dá início ao acompanhamento psicoterapêutico?

JQA – O processo psicoterapêutico poderá ser iniciado com rapidez, dependendo somente da celeridade que é dada, escolas/pais/IPAF, no tratamento dos processos envolvidos. Sinalizadas as crianças ou adolescentes, o prazo máximo estipulado para o início do acompanhamento é de 30 dias. O acompanhamento só é iniciado após a reunião de todos os documentos.

Como é feita a sinalização?

JQA – É realizada pelas escolas. Só é válida mediante o preenchimento da ficha de dados
criança e/ou adolescente e a recolha da autorização do encarregado de educação. Os formulários são disponibilizados pelo IPAF (Unidade PPE).

Que alunos podem ser sinalizados?

JQA – Podem ser sinalizadas todas as crianças ou adolescentes que tenham dificuldades continuadas ao nível da comunicação, da aprendizagem, da mobilidade, da autonomia, do relacionamento interpessoal e da participação social, sendo necessário mobilizar serviços especializados para promover o funcionamento biopsicosocial. Após sinalização, a equipa clínica do IPAF (Unidade PPE) efectua uma avaliação psicológica e/ou neuropsicológica para determinar a presença de um dos seguintes quadros clínicos: deficiência intelectual (leve a profunda), transtornos específicos da fala e da linguagem, transtornos específicos escolares (dislexia e discalculia), transtornos globais do desenvolvimento (Autismo, Rett e Asperger), hiperactividade, distúrbios de conduta (indisciplina) e transtornos emocionais (fobia, ansiedade).

Quais as responsabilidades da Escola?

JQA – A Escola deverá colaborar, em parceria com o IPAF, na recolha da autorização e dos documentos necessários para o seguimento do processo, junto dos respectivos encarregados de educação; disponibilizar uma sala para atendimento; e responsabilizar-se pelo material que é entregue na escola IPAF (Unidade PPE) para a realização das consultas.

Quais as responsabilidades do IPAF (Unidades PPE)?

JQA – O IPAF (Unidade PPE respectiva) deverá indicar, coordenar e supervisionar os psicólogos a integrar o projecto deste acordo; disponibilizar os materiais de avaliação e intervenção psicológica necessários; e entregar o relatório escrito da avaliação realizada ao encarregado de educação e professor. Deverá ainda Participar em reuniões regulares ou extraordinárias convocadas pela Escola.

Quais as responsabilidades dos Pais?

JQA – Devem estar presentes numa reunião e disponibilização de documentos necessários ao processo.

O Projecto está já presente em quantas escolas?

JQA – Actualmente, está presente em 300 escolas no continente. Mas podemos chegar mais longe…

Que balanço se pode fazer deste Projecto? Tem, naturalmente, informação sobre o grau de satisfação das escolas e das famílias…

JQA – As escolas que recorrem ao PPE têm uma satisfação notória. Por um lado, as crianças e adolescentes e os pais sentem-se apoiados, por outro lado, os professores conseguem também organizar as melhores estratégias no âmbito dos grupos, podem realizar mais efectivamente o seu trabalho pedagógico e didáctico, uma vez sinalizadas e aliviadas dificuldades emocionais e neurocognitivas dessas crianças e adolescentes.

O PPE tem proporcionado a construção de uma rede de comunicação no contexto da qual os intervenientes – pais, professores e psicólogos – podem contribuir e permitir um apoio completo à criança e ao adolescente. Porque hoje as dificuldades dos pais em disponibilizarem tempo para o acompanhamento dos filhos às consultas é de conhecimento de todos, o PPE proporciona, como já disse, que as crianças e adolescentes sejam acompanhados na sua escola, quebrando assim fortes barreiras como o conciliar de horários e as deslocações.

Há, portanto, uma dinâmica que envolve directamente três partes: os pais, os professores e os psicólogos clínicos na ajuda às crianças e jovens…

JQA – É isso mesmo. Aliás, nós até designamos essa dinâmica como “o modelo dos 3 P”, a saber: o “P” de Pais, que promovem o desenvolvimento afectivo e social; o “P” de Professores, que promovem os conhecimentos, o desenvolvimento intelectual e a integração cultural; e o “P” de Psicólogos clínicos que intervêm, quando se justifica, na estruturação cerebral e da personalidade. A escola, isolada, não consegue responder às diversas e cada vez mais complexas exigências da sociedade.

Já agora, um breve esclarecimento: entre os psicólogos há áreas de especialização e de intervenção diferentes. Uns são mais da avaliação, do diagnóstico; outros são mais da psicoterapia e da transformação. Por vezes, as escolas têm psicólogos que são da avaliação e não da intervenção. Por vezes diz-se: o aluno já foi ao psicólogo. Certo, foi ao psicólogo avaliador. Agora é preciso ir ao psicólogo transformador (e é aqui que o PPE vai intervir). Se isso não acontecer, corre-se o risco da ida ao psicólogo ter servido para pouco…

Este Projecto está pouco divulgado…

JQA – Estou de acordo. É um projecto que infelizmente é pouco conhecido sobretudo se tivermos em conta que o País bem precisa de projectos como este…

É claramente uma questão de comunicação. É uma informação que não passa, apesar de interessar a todas as partes…Muitas crianças e jovens que interrompem estudos, na sequência de dificuldades de aprendizagem e de integração no meio escolar, poderiam ter outro rumo e atingir outros patamares se usufruíssem desses apoios. Teríamos uma sociedade melhor. Disso não tenho dúvidas.


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