Os ex-filhos

Escrito em em Agosto 12, 2018

Ao longo dos meus anos de trabalho, encontrei vários ex-filhos. A verdade é que um filho não é para sempre. Para muitas mães, o filho só faz sentido como fruto da relação com um determinado homem e terminado o amor com esse homem, termina também o sentimento pelo filho em comum

Um filho é para a vida, diz o povo! Talvez na lei, mas não no coração. O primeiro contacto com esta realidade vivi-o há muitos anos, ainda jovem psicólogo, quando trabalhei com um adolescente por quem a mãe não tinha qualquer afeto. Cuidava-o na alimentação e no vestuário, na higiene e na atenção médica e escolar. Mas não mostrava qualquer sentimento por ele. Este meu paciente havia nascido de um namoro da sua mãe com um homem já casado, mas que só a informou desse seu estado civil quando ela lhe falou da gravidez, e de imediato terminaram o namoro. 

Ao longo da carreira profissional encontrei várias vezes mulheres que, após a separação dos ex-maridos, perderam o vínculo emocional com os filhos. Como se o seu amor por eles só existisse enquanto o casamento existia, e terminado o casamento também o sentimento pelos filhos terminasse.

Com o que fui observando ao longo de muitos anos de trabalho como psicólogo clínico, e nas conversas com colegas, formou-se dentro de mim a ideia de uma categoria a que chamo os ex-filhos. Ao contrário do que o povo diz, um filho não é para sempre. Para muitas mulheres, o filho faz sentido apenas como um fruto da relação com um determinado homem, e terminado o amor com esse homem, termina também o sentimento pelo filho em comum, que, em termos sentimentais, a nível psicológico, se torna então um ex-filho.

Por isso, existem ex-maridos e também ex-filhos, e sendo assim não é de estranhar que tantas vezes os filhos de um anterior casamento sejam um verdadeiro empecilho, um estorvo, que não se sabe que destino dar. Porque a moral e a sociedade não permitem fazer o que então apetece, que seria o libertar-se desses ex-filhos, o convívio e a obrigação de os cuidar transforma-se num tormento, primeiro para a ex-mãe, depois para o ex-filho, que se  empurrado e não percebe o porquê de já não ter carinho nem afeto, de sempre reclamarem com ele, de sempre o criticarem, de tudo o que faz estar sempre mal. 

Sei que não é simpático escrever sobre este assunto. Mas fazer ciência não é simpatia; é alertar para que possamos cada vez melhor lidar com a vida tal como ela é e, se possível, evitando os males que trazem ainda maiores males às pessoas. Quando sentimos alguma coisa que não é reconhecido pela sociedade, esse sentimento destrói-nos a alma, força-nos a agir no sentido contrário à nossa pessoa. Sofremos e fazemos sofrer os outros. Quando sabemos que o que sentimos também outros sentem, que o que pensamos também outros pensam, então suportamos melhor o fardo e a obrigação, se existe, não caímos numa conduta tão negativa. Ou pelo menos melhora-a … 


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