Divórcio, Pais, Visitas e Choros

Escrito em em Agosto 17, 2018

O que prejudica após um divórcio, não é o divórcio em si mas como se lida com a nova realidade. Uma das grandes dificuldades é a visita dos filhos à casa do progenitor com quem não continua a coabitar

Após o divórcio, a vida do casal muda. A vida do casal e da família, o que significa também a vida dos filhos. E esta é a verdade. Nada é mais negativo para o bem-estar psicológico, quer no desenvolvimento da criança e do adolescente quer na saúde mental do adulto, do que o fingir e a mentira. Mudaram, mudaram, e é importante assumir que assim é, e que todos aprendam a viver com a nova realidade.

O que prejudica depois de um divórcio, não é o divórcio em si mas como se lida com a nova realidade. Uma das mais frequentes dificuldades na nova realidade é a visita dos filhos à casa do progenitor com quem não continua a coabitar. Esta visita é muito importante, porque naturalmente o divórcio dos pais não deve ser também um divórcio entre pais e filhos. Mas muitas vezes as tensões entre os adultos perturbam a relação entre estes e as crianças ou adolescentes. E na azáfama de afirmar poder e ganhar alguns pontos, perde-se a bússola e o Norte, deixam de ser os adultos a governar, e na orientação pelas crianças e adolescentes, que ainda estão em desenvolvimento, tudo se baralha, e os mais fracos são os que mais sofrem.  

Que uma criança de dois ou três anos chore e faça birra na hora de sair para visitar a casa do pai não me parece estranho. As crianças desta idade fazem birras e choram em qualquer situação, e mais ainda, de uma forma mais sistemática, se a reação dos adultos a esse choro lhes mostrar que ganharam atenção. Na maioria dos casos o choro termina quando entram no elevador com o pai e se fecha a porta, e muitas vezes o sorriso começa ainda aí.

Mães/pais, avós, tios ou quem entrega a criança tem aqui um papel fundamental. Quantas mais justificações e explicações, pior. É o dia e a hora de ir para casa do pai, é para ir. E se alguma coisa não agrada lá no outro lado é lá que deve ser tratada. Mas a imaginação humana é muito fértil, e pessimista, e começam a surgir os piores cenários. Quase sempre coisas de filme… Pelo superior interesse da criança, é momento de agir com calma e tranquilidade. Se não há evidência de nenhum mal maior, não sejamos nós mesmos a fazer esse mal, alimentando agitação onde ela não existia. A atenção que sempre se deve ter em qualquer outra situação é suficiente para detetar alguns problemas, que na verdade, não são mais frequentes do que os que já havia quando os pais viviam ainda juntos e com a criança.  

Por volta dos sete ou oito anos a criança já manipula com muita facilidade. E manipula tanto mais, quanto maior beneficio imagina que poderá conseguir. Já lhe é muito fácil construir histórias que se ajustam ao que cada um dos que com quem convive quer ouvir. Também nesta idade a visita ao progenitor com quem não vive diariamente é importante para o seu desenvolvimento, por isso nem se deve questionar ir ou não. Da mesma forma, naturalmente, como também não se pergunta à criança se quer ou não ir à escola, e também na escola nem todos os dias correm sempre muito bem… Mais uma vez, quantas mais explicações, pior. Estas são decisões dos adultos e não da criança. Se ela estivesse já apta para se pronunciar, como por vezes escutamos alegar alguns adultos, também estaria apta para se pronunciar sobre muitas outras coisas que naturalmente nem equacionamos questiona-la. É o dia e a hora de ir para casa do pai, é para ir. E se alguma coisa não agrada lá no outro lado é lá que deve ser tratada.  

Na adolescência tudo se pode tornar ainda mais complicado. Mais ainda se os adultos com quem o adolescente vive diariamente estão “de pé atrás” com o outro progenitor. Esta é a grande idade de afirmação, e qualquer vestígio de algum poder para essa afirmação não será desperdiçado. O adolescente percebe rápido a regra do “separar para reinar”, e quanto maior o stress entre os seus pais maior será o seu poder. Nem percebe que no final será ele a sofrer. Por isso mais uma vez aqui, é o dia e a hora de ir para casa do pai, é para ir. E se alguma coisa não agrada lá no outro lado é lá que deve ser tratada. Claro que nesta idade o adolescente é já muito capaz de deixar passar uma ou outra informação que alimente a imaginação de quem está deste lado. Mas é preciso que o adulto tenha a maturidade suficiente para não se deixar “enrolar na onda”.  

Mas nunca acontecem problemas do lado de lá? Sim, por vezes acontecem e infelizmente alguns muito sérios. Mas felizmente são raros. E quase nunca estamos à altura para os resolvermos nós mesmos, inclusive porque não estamos lá e não temos toda a informação. Um alarido baseado na fala de uma criança ou adolescente, que nem tem consciência das complicações do que por vezes inventa apenas para conseguir algum benefício simples, é sempre causador de grandes guerras. Por isso, se estamos na dúvida, comunicamos à polícia. Não sendo caso para tanto, então é o dia e a hora de ir para casa do pai, é para ir. E se alguma coisa não agrada lá no outro lado é lá que deve ser tratada. E esta segurança mostrada por mães e pais, é base de uma construção saudável da personalidade.  


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